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Robinson Crusoé - 7ª série / A carta de Pero Vaz de Caminha - relatos de viagem


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Os relatos de viagem são produzidos em situações bastante diversas.Historicamente, foram muitas vezes usados como registros oficiais sobre territórios descobertos, explorados ou conquistados por determinado povo.Atualmente esse gênero têm sido, em geral, produzido e publicado com o objetivo de informar ou entreter o leitor, ao retratar lugares e situações incomuns.



A  carta que o escrivão Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei d. Manuel é considerada o primeiro documento da nossa história.É também o primeiro texto literário do Brasil e é o mais minucioso e importante documento relacionado à viagem da esquadra de Cabral ao Brasil. Foi publicada pela primeira vez apenas em 1817, mais de trezentos anos após haver sido redigida, como parte do livro Corografia Brasílica..., de autoria de Manuel Aires do Casal. Isto significa que, até essa época, a história contada sobre a viagem de 1500 foi substancialmente diferente da narrada depois.



"Senhor
Posto que o Capitão-mor desta Vossa Frota e assim igualmente os outros capitães escrevam a Vossa
Alteza dando notícias do achamento desta Vossa terra nova, que agora nesta navegação se achou, não deixarei
de também eu dar minha conta disso a Vossa Alteza, fazendo como melhor que me for possível, ainda que – para
o bem contra e falar – o saiba pior que todos. Queiram porém Vossa Alteza tomar minha ignorância por boa
vontade, e creia que certamente nada porei aqui, para embelezar nem enfeiar, mas do que vi me pareceu.
(...)
A feição deles é parda, algo avermelhada; de bons rostos e bons narizes. Em geral são bem feitos.
Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de cobrir ou mostrar suas vergonhas, e nisso são tão
inocentes como quando mostram o rosto. Ambos os dois traziam o lábio de baixo furado e metido nele um osso
branco e realmente osso, do comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na
ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do lábio, e a parte de dentro do lábio, e a parte que fica
entre o lábio e os dentes é feita à roque-de-xadrez, ali encaixado de maneira a não prejudicar o falar, o comer e o
beber.
(...)
Um deles viu umas contas de rosário, brancas: mostrou que as queria, pegou-as, folgou muito com elas e
colocou-as no pescoço. Depois tirou-as e com elas envolveu os braço e acenava para a terra e logo para as contas
e para o colar do capitão, como querendo dizer que dariam ouro por aquilo. Nós assim o traduzíamos porque esse
era o nosso maior desejo... Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isso nós não desejávamos
compreender, porque tal coisa não aceitaríamos fazer. Mas, logo depois ele devolveu as contas a quem lhe dera.
(...)
Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até outra ponta que contra o
norte vem, de que nós deste ponto temos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas
por costa. Tem, ao longo do mar, em algumas partes, grandes barreiras, algumas vermelhas, outras brancas; e a
terra por cima é toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é tudo praia redonda, muito chã
e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque a estender d’olhos não podíamos ver senão
terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.
Nela até agora não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem
o vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre-Douro e Minho,
porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
As águas são muitas e infindas. E em tal maneira é grandiosa que, querendo aproveitá-la, tudo dará
nela, por causa das águas que tem.
Porém, o melhor fruto dela se pode tirar me parece que será salvar essa gente. E esta deve ser a
principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar.
E que não houvesse mais que ter aqui Vossa Alteza esta pousada para a navegação de Calicute, isso
bastava. Mais ainda, disposição pra nela cumprir-se – e – fazer – o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber:
acrescentamento da nossa Santa Fé!
E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se me alonguei um
pouco, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, me fez pôr assim tudo pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer cousa de Vosso
serviço for, Vossa Alteza há de ser por mim muito bem servida, a Ela peço que por me fazer singular mercê,
mande vir da Ilha de São Tomé de Osório, meu genro – o que d’Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza."
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha.

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